segunda-feira, 25 de março de 2013

Khan Academy: O velho travestido de novo ?



A menos que tenha feito uma viagem a Marte recentemente, você leitor envolvido com a área de educação já deve ter, no mínimo, ouvido falar da Khan Academy.  Trata-se  de uma organização sem fins lucrativos, que oferece bons conteúdos na forma de vídeo-aulas, além de exercícios  e um programa que permite ao aprendiz acompanhar a evolução de sua aprendizagem. Em 2004 Salman Khan, após ter produzdo video-aulas  para ensinar matemática a seus primos e colhido enorme sucesso quando  passou a disponibilizá-las via youtube, decidiu criar a Khan Academy. Sua iniciativa vem obtendo resultados e reconhecimento ao redor do mundo. Bill Gates é um dos entusiastas dessa forma de material complementar de aprendizado, que é utilizado por seus próprios filhos. Bill Gates passou a ser também patrocinador da Khan Academy, assim como outros empresários, empresas, escolas e até mesmo pessoas comuns, por meio de doações. O site já passou de um milhão de usuários por mês.

Velhos modelos ?

Na essência as video-aulas de Khan são aulas expositivas. Até o quadro negro é reproduzido, com a explicação do professor em áudio. Os exercícios e o sistema de avaliação lembram os velhos  "estudos dirigidos". Khan não tem formação em pedagogia (é matemático, engenheiro e cientista da computação, com mestrado pelo MIT e MBA por Harvard). Sua "descoberta" foi basicamente empírica. O sucesso ocorreu por seleção natural, viabilizada pelas facilidades que hoje existem para o compartilhamento de vídeos via internet. A falta de maior embasamento teórico e a repetição de modelos antigos "travestidos de novos" são as críticas mais frequentes vindas de educadores e teóricos da educação.

Motivado pelo sucesso dessa iniciativa mas, ao mesmo tempo, preocupado com a unanimidade - em geral "rodrigueanamente burra" - da mídia, e instigado pelas críticas de alguns educadores, faço aqui algumas reflexões.

Gostaria também de ler sua opinião, sua crítica  e suas ideias, leitor. Por favor, compartilhe-as na área de interação do blog ou no Grupo "Educação sem Distância" do Facebook.

Começo por criticar a critica. Afirmar que algo é ruim simplesmente porque é velho soa preconceituoso. Os modelos de Piaget, Vigotsky, Dewey e Freire, para citar apenas alguns de nossos ídolos, não podem ser chamados de novos. Mesmo assim continuam a ser (re)descobertos todos os dias em projetos educacionais inovadores. Se um modelo continua funcionando não precisa ser substituído apenas porque ficou "velho".

A aula expositiva tradicional

Então vamos entender porque o modelo expositivo tradicional não funciona. Não funciona porque não atende necessidades individuais (os alunos possuem ritmos, interesses e formas de aprendizagem diferentes, mas nesse modelo o professor segue um ritmo médio e padronizado). Não funciona porque não privilegia a interatividade, a discussão, a construção do conhecimento. Não funciona porque os alunos não têm autonomia e, portanto não há uma das condições necessárias para a motivação intrínseca (saiba mais sobre motivação lendo o excelente livro "Why we do what we do"). Não funciona porque damos as respostas antes de os alunos terem formulado as perguntas em suas cabeças.

Bem, daria para prosseguir com vários outros problemas, dentre eles o baixo aproveitamento do potencial do professor em sala de aula (o professor repete aulas como papagaio, muitas vezes com entusiasmo e qualidade decadentes ao longo do tempo) e a pouca - ou nenhuma - exploração do enorme potencial que a sala de aula oferece para as interações aluno-aluno, aluno-professor e aluno-conteúdo.

Entendendo o modelo "Khan"

Entendidos os principais aspectos do problema podemos analisar melhor as alternativas de solução. Mas antes vamos ver a explicação do método Khan, dada por ele mesmo.




Podemos ver, então, que ele realmente usa métodos antigos, porém de forma totalmnte nova. Por que então funciona ? Funciona porque atende necessidades individuais (os alunos podem pausar, repetir ou pular o professor, sem se sentirem intimidados, e de acordo com seu ritmo de aprendizagem). Funciona porque introduz a interatividade num modelo que era totalmente passivo. Funciona porque os alunos  têm autonomia e, portanto uma das condições necessárias para a motivação intrínseca.  Funciona porque o aluno vais atrás de respostas às dúvidas que vão surgindo em suas cabeças.

Dessas constatações e experiências surgiu a ideia da "aula invertida" (flipped class), trocando-se a aula expositiva em sala de aula pelas vídeo-aulas em casa e as atividades de consolidação do conhecimento, antes realizadas na forma de "lições de casa" por aulas interativas e práticas, supervisionadas pelo professor, em sala de aula. Assim as atividades ficam mais dinâmicas e motivadoras, para alunos e professores, com aproveitamento de todo o potencial que a sala de aula oferece para as interações aluno-aluno, aluno-professor e aluno-conteúdo. Também fica mais fácil para o professor dar atendimentos personalizados, além de acompanhar o desenvolvimento das atividades dos alunos no ambiente virtual (graças às ferramentas disponíveis para esse fim).

Khan Academy no Brasil

Paro minhas reflexões por aqui, aproveitando para dar uma boa noticia (para quem não sabe ainda).: a Fundação Lemann está trazendo a Khan Academy e, obviamente, traduzindo as video-aulas, além de fazer parcerias com várias escolas e ajudando-as a implantar o método Khan. Saiba mais sobre essa iniciativa acessando este link.

Assista abaixo a um exemplo de video-aula sobre como transformar frações em decimais, já traduzido para o português.





Continuando as discussões

Esse assunto está longe de se esgotar. Enquanto escrevia, várias questões iam surgindo na minha cabeça, como a "gamification" dos tão  criticados "estudos dirigidos", as questões culturais que contribuíram para o sucesso do método Khan (hoje a nova geração vai ao youtube procurar respostas para suas dúvidas com a mesma naturalidade que as gerações antigas recorriam a pais e professores), ou o poder da interatividade, ainda que seja apenas o poder de parar e rever ( aula na televisão era uma chatice para a gerações baby boomer e X, já aprender qualquer coisa no youtube é cool para as gerações Y e Z )  (*).

Passo então a você, leitor, o bastão para a continuidade dessa instigante discussão, podendo retornar a esse assunto, revigorado pelas ideias e críticas de vocês, em futuros posts. Até breve.

PS: a respeito desse mesmo assunto sugiro a leitura desta matéria da Carta Capital. Lá também está rolando uma interessante discussão no espaço para opinião do leitor (meus agradecimentos ao Nilton Machado, da Sciencia, pela dica).

PS2: Veja matéria sobre Aula Invertida que saiu na Revista Exame.

(*) veja mais sobre gerações neste meu outro post.


domingo, 24 de março de 2013

As gerações interativas já estão mudando as escolas...


Há algum tempo publiquei o post "Se a Escola não mudar as gerações interativas a mudarão ..."  Hoje recebi de um amigo no Facebook o video abaixo que compartilho com vocês.  Nele o garoto "Thomaz Suarez" faz uma palestra no TED contando sobre suas experiências no desenvolvimento de aplicativos para iPhone e iPad (e declara que pretende desenvolver também para Android). Conta como foi incentivado por pais, professores e pela Apple Store (onde publicou seus primeiros aplicativos). Com o apoio de professores criou um clube de programação para ensinar colegas a progarmar aplicativos.

Este é um pequeno exemplo de como as novas gerações interativas já começam a mudar a escola. Interessante quando o palestrante mirim dá um sorrizinho maroto e diz que a sua geração conhece tecnologia "a little bit more" (um pouquinho a mais) que os seus professores. Mas isso não é colocado de forma crítica ou com arrrogância. Ele sabe valorizar seus professores, tanto que recorreu a um deles para montar seu clube.

Os professores só precisam entender que seu papel mudou. Não precisam ter medo das novas tecnologias, afinal, se tiverem dificuldade com algo, seus alunos estarão lá para ajudá-los ;-) .  Não podem enfiar a cabeça em um buraco e querer impedir que a tecnologia entre em sua sala de aula. Isso só os distanciaria de seus alunos.

O professor sempre será fundamental no processo educativo. É ele o catalisador da construção do conhecimento por parte de seus alunos. Para isso não precisa ser o detentor de todo o conhecimento. Sendo um eterno aprendiz, aprendendo com seus alunos, compreenderá melhor a perspectiva da aprendizagem centrada no aluno. Poderá, então, usando sua experiência e seus conhecimentos e métodos adequados de aprendizagem, orientá-los em todo esse processo, semeando-lhes a curiosidade e o prazer do conhecimento.

terça-feira, 12 de março de 2013

Educação 3.0



Finalmente aconteceu o InovaEduca 3.0 Recife. Aliás, para ser mais justo com a cidade que é linda até no nome, o título do evento deveria conter Olinda, local do Centro de Convenções Pernanbuco. O evento foi bastante concorrido, com participantes vindos de todo o Brasil (com predominância, claro, da região nordeste). Foi muito bom poder ouvir e interagir com importantes referências da tecnologia na educação.  Em breve vocês encontrarão no site do evento materiais de todas as apresentações. Adianto aqui um breve resumo das conferências de abertura.

O evento foi aberto pelo Secretário da Educação do Estado de Pernambuco, Ricardo Dantas, mostrando o importante trabalho que Pernambuco vem desenvolvendo no uso da tecnologia na educação, envolvendo computadores  que se transformam em tablets, robótica, software de gestão e apoio a aprendizagem e formação de professores, entre outras ações.

Em seguida tivemos a participação do Prof John Moravec da Universidade de Minnesota, via videoconferência.  Ele apresentou sua proposta de aprendizagem invisível, que procura integrar todas as formas de aprendizagem e trazer uma visão do futuro da educação.  Ele nos deu a noa notícia de que a edição em espanhol de seu livro pode ser baixada gratuitamente (clique aqui para baixá-la). 

cover art for Education 3.0 bookO Prof Jim Lengel nos apresentou de forma muito didática o conceito de Educação 3.0, que foi o tema principal do evento. Em síntese: na educação 1.0 tínhamos a aprendizagem em pequenos grupos,  em espaços abertos, de forma muito similar a como era o espaço de trabalho (basicamente artesanal e agrícola) da época. Na educação 2.0 temos a reproduçãoõ do modelo industrial (grandes grupos, todos fazendo a mesma coisa simultaneamente, as escolas simulando "fábricas de profissionais"). Hoje temos o espaço de trabalho 3.0 (ambientes abertos, profissionais com autonomia, trabalho criativo e colaborativo etc..) mas a maioria das escolas parou na educação 2.0.  Como fazer para levar a educação 2.0 para a 3.0 ? Para saber mais sobre Educação 3.0 visite o site do livro de Lengel ( Education 3.0: Seven Steps to Better Schools) .


Após a apresentação do Prof Lengel fiz uma palestra sobre RA e Interfaces por Gestos na Educação. Mais informações sobre o conteúdo de minha apresentação podem ser encontradas nestes posts:  "Se a Escola não Mudar as Gerações Interativas a Mudarão"   ,   "Realidade Aumenatda para uma Educação sem Distância"  e  "Gestos e Interfaces Naturais para uma Educação sem Distância".

Ao final de minha conferência fiz uma demonstração de um aplicativo de realidade aumentada gratuito para iPad. O aplicativo se chama AURASMA. Em relação a ferramentas de realidade aumentada mais tradicionais esse aplicativo tem algumas vantagens interessantes, tais como: fácil de usar, dispensa marcadores, não precisa de conhecimentos de programação,  trabalha na nuvem, utiliza GPS.

O evento continuou a tarde com várias oficinas, palestras e as conferências de encerramento, com Peter Evans, Luciano Meira e Edvaldo Couto. Infelizmente, devido a outros compromissos,  perdi  a oportunidade de ouvir esses três gurus. Aguardo ansiosamente a liberação no portal do evento do material de suas apresentações, bem como dos demais palestrantes.

PS: Notícia sobre o evento no Diário de Pernambuco traz um ersumo das discussões na abertura do evento (obs: onde a reportagem escreve "realidade atual" leia-se "realidade auemntada").